Em maio de 2003 entrou no ar na TV Globo um dos projetos mais ambiciosos e ousados da emissora, a novela Kubanacan. Escrita por Carlos Lombardi e dirigida por Wolf Maya e Roberto Talma, a trama foi exibida no horário das 19h de maio de 2003 a janeiro de 2004, num total de 227 capítulos.

Cultuada pela internet, sempre houve muitos relatos de noveleiros e de saudosistas em geral sobre a novela. Alguns a detonavam e diziam que era ruim, e outros a elogiavam com constante entusiasmo nostálgico. Começando sem prometer, mas com muito fôlego e histórias pra contar, a novela se revelou uma excelente obra audiovisual, extremamente importante e relevante para a teledramaturgia brasileira.

Sinopse

Praia de Santiago, 1951: em uma noite de tempestade, cai do céu um homem nu numa pacata vila de pescadores no litoral norte de Kubanacan, um país caribenho exportador de banana. Desmemoriado, ele começa a ser chamada de Esteban e ganha simpatia pelos habitantes da vila e da jovem viúva Marisol (Danielle Winits), mãe de dois filhos. Aos poucos, os dois se apaixonam e passam a viver como casados, e Esteban como pai de seus filhos. Enquanto isso, na capital do país, La Bendita, em meio a um caos político após a morte do presidente, o General Carlos Camacho (Humberto Martins) da um golpe de Estado, e se torna ditador e presidente, tudo graças a Mercedes (Betty Lago), sua amante e ex-primeira dama. Com o passar do tempo, Esteban (Marcos Pasquim) percebe que há muitos a sua procura querendo lhe ver morto, e começa a investigar seu passado.

A partir desta trama de mistério que Kubanacan começa. Aos poucos, o espectador é questionado sobre o que trouxe o protagonista a cair na vila de pescadores e o quem ele é de verdade. Após Marisol fugir de Santiago e ser dada como morta, Esteban se muda para a capital do país, aonde começa suas investigações ao lado de Lola (Adriana Esteves), uma dona de casa que sonha em ser uma cantora de sucesso.

Foto: Reprodução/TV Globo

Primeiras Impressões

Logo de início, a agilidade da trama pega o espectador de supetão, e o deixa completamente vidrado na novela. Carlos Lombardi, a mente criativa por trás de grandes clássicos da TV Globo como Bebê a Bordo (1988), Quatro por Quatro (1994), Uga Uga (2000), O Quinto dos Infernos (2002) e Pé na Jaca (2006); e da primorosa, porém pouco vista Pecado Mortal (2013) da Record TV, traz em Kubanacan mais uma vez seu tom sarcástico e seu humor pastelão escrachado, lotado de conotações sexuais e referências a histórias em quadrinho. O texto é ágil, e o uso de sacadas rápidas e piadas de duplo sentido ajudam a moldar a comédia da trama, ao mesmo tempo em que a ação e as cenas de violência são é bem cartunescas, típicas dos quadrinhos de super-heróis. A sensualidade trazida pelas inúmeras cenas de homens sem camisa e mulheres com figurinos que exaltam o corpo, característico do autor, é usada de forma justificada dentro deste universo, sem soar gratuito.

A ambientação numa ilha fictícia nos anos 50 também traz um diferencial para as produções de época. A direção de arte mistura elementos típicos dos países caribenhos com características brasileiras. A ilha de Kubanacan é completamente crível e o universo criado pelo autor faz o espectador se apaixonar pelas belezas naturais do lugar e pela dimensão de realidade que é transmitida desde o início.

No elenco, o grande destaque é Marcos Pasquim, que interpreta Esteban e suas diferentes personalidades e versões de maneira espetacular, diferenciando cada um com verdade, sem deixar caricato ou bobo, mesmo sendo uma novela de comédia. Danielle Winits entrega seu maior papel em novelas, Marisol, uma personagem ambiciosa que toma decisões equivocadas em seu caminho e sofre as consequências do destino. Outros destaques são a excelente Adriana Esteves como Lola, em um papel cômico de uma dona de casa, Vladimir Brichta como o malandro Enrico e Carolina Ferraz, como a tímida Rubi. Do elenco secundário, destaque também para Luís Guilherme como Seu Manolo, André Mattos como Augustín, Nair Bello como Dolores, Raíssa Medeiros como Pilar, Daniel Boaventura como Johnny, Pedro Malta como Gabriel e Werner Schünemann como Alejandro.

Em questões estruturais, Lombardi trouxe para Kubanacan uma subversão da estrutura tradicional de uma telenovela. O capítulo é pautado na ação do protagonista, Esteban, e no vai e vem da aventura, deixando o gancho final para alguma nova descoberta dos mistérios da novela. Os capítulos são completamente centrados no protagonista absoluto, Esteban e nos co-protagonistas que lhe rodeiam: Lola, Marisol, Rubi, Enrico, Mercedes e Camacho. Deste modo, o autor foi ousado ao trazer a estrutura típica de seriados, onde toda a ação se concentra em seus protagonistas. Os núcleos paralelos são protagonizados pelos co-protagonistas e os personagens secundários são meras escadas para estes e não tem desenvolvimento ou histórias próprias, servindo apenas para interagir no mundo particular dos personagens importantes. Quando um secundário não interage com um deles, este não aparece na trama, tornando-a mais focada e dinâmica.

Arcos Episódicos

Com uma quantidade grande capítulos e uma estrutura completamente diferente de uma novela tradicional, o autor trouxe para Kubanacan o recurso dos arcos de episódios focados em algum personagem ou focados na história central, que ao final, somavam ao enredo dos mistérios da novela. Estes arcos funcionam durante a novela toda, e são somados a eles a aparição de personagens específicos, fruto de inúmeras participações especiais do elenco da emissora na época. Grandes atores como Joana Fomm, Gabriela Duarte, Ana Rosa, Mauro Mendonça, Claudio Corrêa e Castro, Carolina Kasting, Benvindo Siqueira, Marco Ricca, Tony Tornado, Eduardo Moscovis, Viviane Pasmanter, entre outros, participaram destes arcos como personagens que geram conflitos à trama e trazem novos desdobramentos e pistas para o passado de Esteban.

Foto: Reprodução/TV Globo

Trama

A trama de mistério é coerente do início ao fim, sem nos trazer muitas explicações didáticas para as relações dos fatos. O autor não utiliza de muitas reiterações para compor seu texto (recurso padrão em telenovelas para explicar acontecimentos para o público que perdeu capítulos ou está começando a assistir da metade), trazendo dinamismo e privilegiando o espectador que está atento a todos os detalhes da trama. O que se vê na tela não é nada confuso para quem assiste com atenção a todos os capítulos, mas deixa sem entender quem a pega pela metade, o que talvez possa ser a causa dos relatos de espectadores da época, que diziam não entender o que acontece na novela.

O autor dosa muito bem a comédia, a ação e o melodrama, com elementos de suspense, espionagem e ficção científica de maneira extremamente coesa, tratando cada elemento em seu lugar certo, ao mesmo tempo tornando tudo em um só. Todos os protagonistas têm momentos sérios, de comedia e melodramáticos, mesmo que alguns deles caiam mais para o lado do humor ou para o melodrama, com carga emocional mais densa.

Além dos mistérios do protagonista, a novela traz uma trama política em forma de sátira aos governos brasileiros e à população do país. Kubanacan é comandada pelo ditador General Camacho, que dá um golpe de Estado apoiado por Mercedes. A população é passiva e aceita os desmandos do General sem questionar os vários escândalos de corrupção e problemas econômicos que ocorrem no governo. Tudo muda com a chegada de Esteban, conhecido por todos como “Pescador Parrudo”, que ao enfrentar Camacho, faz o povo kubanaquenho se questionar politicamente. Aos poucos, a trama política vai se entrelaçando com os mistérios de Esteban, principalmente com a chegada de Alejandro (Werner Schünemann), pai do rapaz, e os elementos de conspiração, espionagem e ficção científica vão aumentando gradativamente e tomando conta da novela.

Foto: Reprodução/TV Globo

Personagens

A novela inova ao focar exclusivamente em seus protagonistas e em suas vidas pessoais, a partir da ótica da chegada de Esteban ao país, que transforma o destino de todos. Por muitas vezes alguns personagens secundários deixam de aparecer na história durante um tempo, já que existem apenas para viver no mundo particular de cada protagonista. Esta estrutura incomum em telenovelas deixou alguns atores descontentes, e alguns pediram para deixar a trama. Com o passar dos capítulos, alguns secundários foram ganhando algum destaque, pois participavam ativamente do núcleo de um dos protagonistas.

Os personagens em geral são dúbios, e o que os divide entre bons e maus é o caráter e a intenção de cada um. O protagonista Esteban, por exemplo, tem um passado obscuro. Era homem violento e cruel, completamente diferente do que é no presente, o que é descoberto com a aparição do Dark Esteban, sua personalidade “malvada” de antes de cair em Santiago. Outro personagem de caráter duvidoso é Enrico, marido de Lola. O personagem é o típico malandro: engana e trai a esposa diariamente, mas possui pouca inteligência e serve de alívio cômico em grande parte da trama. Contudo, a personagem com mais camadas é, sem dúvidas, Marisol. Cansada de viver em Santiago, ela foge com sua filha para La Bendita ao ser seduzida pelas promessas de Camacho, mas sofre um acidente de barco, fica desaparecida e é dada como morta. Ao retornar, escolhe continuar sumida e vivendo como dançarina na boate Copacabana Night Club, deixando seu outro filho e marido acreditarem que morreu. Marisol tem muitas nuances morais que são exploradas durante a novela, como o amor por sua família versus o sonho de uma carreira ou honestidade versus ambição.

Melodrama

Mesmo com tantas inovações para o gênero, Lombardi apresenta uma típica história de amor dos folhetins. Esteban é casado com Marisol, que cansada de sua vida simples, foge para a capital e é dada como morta. O pescador acredita que é viúvo e também parte para o centro do país, onde conhece Lola, e se apaixona perdidamente por ela. Lola é casada com Enrico, que no passado era namorado de Marisol, que o largou para ficar com Esteban. Nesta confusão, ainda tem a presença de Rubi, irmã de Lola, que é secretamente apaixonada pelo cunhado.

Os casais desta novela têm bastante química, e mesmo que o espectador não se interesse tanto, vai acabar uma hora ou outra torcendo pra algum deles. Não há a figura do vilão que almeja separar os casais, os conflitos surgem pelos desatinos, perigos e mal entendidos que rodeiam a novela. O casal principal, Lola e Esteban, é embalado ao som de No me platiques más, versão cantada pelo cantor mexicano Cristian Castro, que traz o apaixonante bolero em meio a divertidas brigas de convivência, típicas do clichê da Megera Domada, e apuros com bandidos e mafiosos perigosos que os perseguem.

Foto: Reprodução/TV Globo

Problemáticas

Apesar de diferente dos padrões de teledramaturgia da época, Kubanacan é fruto do seu tempo e de uma mentalidade diferente dos dias atuais. Mesmo justificadas pela ambientação em 1958, a novela contém tramas e cenas machistas, representações antiquadas de personagens homossexuais e piadas com religiões de matriz africana que não cabem mais hoje em dia. Mesmo com essas problemáticas típicas de uma época onde minorias sociais tinham pouca voz, a qualidade da novela não é abalada e as problemáticas podem ser abstraídas e vistas com a distância do tempo.

Foto: Reprodução/TV Globo

Disponível no catálogo de novelas do Globoplay, serviço de streaming do Grupo Globo,** Kubanacan** (2003) é uma grande pérola da teledramaturgia brasileira. Suas inovações em estrutura, história e personagens contribuem para a subversão do formato tradicional de telenovelas ao buscar misturar o folhetim melodramático ao formato dos seriados, o que viria a ser uma tentativa comum das tramas pós Avenida Brasil (2012). Como um todo, não se trata de uma obra a frente de seu tempo, mas sua intenção mostra que é possível ser original numa época onde não se tinha muitas inovações para o gênero, e ao mesmo tempo, ser uma das pioneiras de uma tendência futura da teledramaturgia brasileira.

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Renan Oliveira

Renan Oliveira

@renan_costaz

Pesquisador, divulgador e amante da televisão e da teledramaturgia brasileira.

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