Os Estados Unidos do começo da década de 2000 estava mergulhado em um dos seus momentos mais traumáticos e sombrios: os ataques as Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 e a vida pós ele no governo Bush. Questões como a fragilidade humana diante do terrorismo, o trauma de uma nação ferida, o medo paranoico, a relação entre fé e política, fundamentalismo e o “inimigo estrangeiro” surgiram com força no imaginário norte–americano assim como debates sobre o genocídio praticado pelo governo Bush, o imperialismo norte–americano que mais uma vez ficava claro, o crescente clima de xenofobia, ódio e perseguição com momentos escusos (petróleo e as riquezas naturais).

As duas faces do autoritarismo estavam bem claras e a tal Guerra Ao Terror surgida como resposta aos ataques terroristas só desmascara uma das verdadeiras faces do seu país: onde tortura e abuso estavam entranhados no militarismo e na postura do governo em gravações que só deixavam claro práticas corriqueiras do exército. Onde a resposta violenta do governo Bush remetendo a “cruzadas” entre outros discursos também deixava clara um componente protofascista em seus discursos, infestados de preconceito, perseguição e um fanatismo religioso cristão conservador.

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A dor e o vazio existencial cercavam boa parte da sociedade norte–americana, a perda e indignação justas e corretas, assim como o ódio, o preconceito generalizado, a paranoia desesperada e as ações de um governo que mais uma vez mostrava o poder eterno de destruição norte–americano – existente antes de Bush e depois dele em todos os governos – para o resto do mundo passavam longe do inaceitável, enquanto por outro lado as ideias de fundamentalismo e terrorismo, a mistura maligna de fanatismo religioso com a política e a violência vinda disso, assustava e vitimava inocentes, deixando claro o poder também nefasto de todo isso.

O mundo vivia cercado lembrança dos inocentes mortos pelos ataques terroristas e pela administração Bush. E as artes reagiram. Refletiram o clima e as discussões ao seu redor cada uma do seu jeito: Shyamalan de maneira espetacular refletiu a paranoia norte– americana no seu “A Vila” (2004) tão mal compreendido no seu lançamento, Spike Lee enfrentou o vazio de uma Nova York atacada e traumatizada em “A Última Noite” (2002), um dos seus melhores trabalhos, Brian de Palma desmascarou o exército norte–americano pelas suas imagens no ótimo “Guerra Sem Cortes” (2007), Michael Moore subiu no Oscar e gritou contra George um discurso anti–guerra, os trabalhos de Frank Miller abraçavam cada vez mais a paranoia norte–americana e reproduziam xenofobia e preconceito, George Lucas transformou o seu “A Vingança dos Sith” (2005) num claro filme anti–Bush, Kathryn Bigelow começou a fazer um cinema de retrato desse período o que lhe rendeu um Oscar, e por aí vai. Muita coisa artisticamente – goste–se ou não – surgiu desse período e clima dos anos 2000 porque a arte de algum jeito sempre dá um jeito de refletir o mundo ao seu redor.

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A televisão não estava atrás. “24 Horas” (2001–2010) talvez seja o exemplo claro disso. A série não foi apenas revolucionária apenas pelas suas cenas de ação excelentes e acima da média do que era feito até então nas séries, pela sua narrativa continua, reviravoltas muito bem pensadas, um clima frenético de total imersão, pela questão de tempo real e por trazer uma mistura de blockbuster de ação com um thriller político tenso para a televisão consolidando o carisma de Kiefer Sutherland como um dos maiores astros que a TV já teve.

Por mais que suas primeiras temporadas sejam fantásticas (a primeira então indiscutivelmente uma obra–prima) e o seu legado para a televisão seja irretocável mesmo com a sua decadência do meio até o fim, “24 Horas” não deixou de simplificar questões como terrorismo, compor personagens estrangeiros como caricaturas, cair muitas vezes num maniqueísmo e numa batalha de “bem e mal” e romantizar/justificar o uso da tortura. Claro que como toda boa arte, “24 Horas” era capaz de ser autocrítica e muito mais complexa do que aparentava: a excelente quinta temporada por exemplo tinha como seu grande inimigo o próprio representante maior dos Estados Unidos, porém em grande parte do tempo, o sentimento de ufanismo habitava a série, mesmo com os seus diversos méritos, foi o que prevaleceu.

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Porém se “24 Horas” é a série que mais claramente refletiu a Guerra ao Terror, a que sem dúvidas melhor lidou com o tema e desenvolveu de forma exímia um retrato todos os dilemas políticos surgidos os anos 2000 e principalmente do seu clima foi surpreendentemente, por mais estranho que isso possa parecer, “Battlestar Galactica” (2003–2009). Os méritos de “Battlestar Galactica” não foram apenas trazer um tom de filmagem meio documental e plasticamente realista ao mesmo tempo misturando isso a um tom de ficção cientifica épica meio espiritual no sentido místico – mas sem tornar isso algo de demonstração ou só artificio de seriedade, mas unindo esse fator como uma linha de proximidade com os seus personagens e o cotidiano deles em planos geniais – para uma ficção cientifica de opera espacial, mas trazer uma densidade temática tão rica, complexa e profunda em conteúdo, em como isso é discutido e inserido dentro de sua narrativa que é chocante.

Depois de um ataque nuclear terrorista executado pelos Cylons, uma raça de androides criados pelos humanos, a humanidade é dizimada e os sobreviventes são colocados numa Frota Colonial especial que vaga pelo espaço em busca de um novo lar enquanto tem que enfrentar os seus inimigos robôs e sobreviver, e que tem como nave militar, a Battlestar Galactica, comanda por William Adama (Edward James Olmos), o protagonista central da série. Roteirista de alguns dos melhores episódios de “Star Trek: The Next Generations” e “Star Trek: Deep Space Nine”, Ronald D. Moore transformou o reboot de uma série clássica dos anos 70, que praticamente se resumia num Star Trek/Star Wars genérico, em um estudo humano e político que simplesmente humilha diversas séries e filmes do seu mesmo gênero e mostra o nível de ambição e ousadia artística que algo desse tipo pode chegar até mesmo num canal como o Syfy é imbatível quando temos um grupo de artistas apaixonados e criativos com algo próprio pra contar sem escolher o caminho mais fácil.

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Mesmo não tendo o orçamento de um “The Mandalorian” ou um “Game of Thrones” da vida, Battlestar faz sequencias de ação irretocáveis e de tirar o folego porque concentra as suas catarses, combates, batalhas e conflitos em uma explosão de tensão criada com muito cuidado por diversos episódios em que só foi enriquecendo aquela material. E tudo parece muito mais sincero e visceral porque a ação em Battlestar está totalmente em casamento com o estado de espirito dos seus personagens. Assim como a população norte–americana nos anos 2000, os personagens de Battlestar vivem um estado psicológico de estresse e trauma constante, afetados pela tensão e tragédia de suas vidas.

A humanidade de Battlestar Galactica é falha, cheia de defeitos, demônios, medos, traumas, paranoias, passados sombrios, camadas sombrias, sofrimentos e tendo que conviver num cenário de fim de mundo, de guerra e de debates constantes com divergências das mais variadas que só salienta ainda mais os conflitos internos dos próprios humanos dos menores até os mais polarizastes e fatais. Os personagens mais “heroicos” podem cometer erros chocantes e os personagens mais “odiosos” podem mostrar alguma humanidade, os inimigos de hoje são aliados de amanhã e o contrário também, e tudo isso soa natural, porque todos são brilhantemente desenvolvidos e psicologicamente decifrados como muito além de “bons” e “ruins”. Battlestar rejeita por completo o maniqueísmo e não protege nenhum dos seus personagens. É corajosa demais em os colocar nas situações mais inimagináveis e mais palpáveis ao mesmo tempo. Seus personagens erram, acertam, erram de novo, acertam novamente e assim vai: transam, bebem, falam palavrão, amam, traem, odeiam, tem ideologias, preconceitos, vícios, fraquezas, encantos, fragilidades, discordâncias, fés, rixas, amizades, traumas, e tudo que os torna próximos de nós. Até mesmo e principalmente os “Clyons”.

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O debate teológico e político compõe grande parte do interesse pela série que também se beneficia deles para fazer um jogo entre as expectativas do espectador sobre a batalha dos Cylons e dos humanos. Fundamentalistas religiosos, a ameaça Cylon é vista como um reflexo da paranoia pós um ataque terrorista onde o inimigo ainda existe e pode sempre voltar a atacar, ao mesmo tempo que a série é muito inteligente em sempre salientar como os próprios Cylons podem ser vítimas dos próprios humanos, produtos dos seus próprios abusos e serem personagens extremamente ricos e complexos emocionante falando. Sem jamais esquecer que eles também são capazes de instaurar ditaduras terríveis e mudar de oprimido para opressor a qualquer hora. A humanidade também não fica muito atrás disso não. O militarismo, um dos pontos centrais da série, é sempre reflexo de uma disputa e conflitos dos poderes entre as forças políticas que comandam aquela nave que vão mudando, se contradizendo, se somando e trocando os peões em trocas de peões. Adama e sua trupe sempre estão há um passo de se tornarem aquilo que eles combatem, de abusarem do poder, de serem autoritários e de abraçarem a ditadura.

Porém quando finalmente se chocam com isso no episódio “Pegasus” da segunda temporada, uma das melhores horas de televisão já feitas, tudo é explicitado mais forte que nunca sem abandonar a sutileza costumeira de Battlestar. Nesse episódio os protagonistas da série se confrontam com seus reflexos caso eles passassem dos limites, com o pior do autoritarismo, eles se confrontam com o fato que a humanidade também pode ser monstruosa, que o militarismo pode ser uma força maligna, fascista, xenofóbica e que a tortura contra o inimigo de guerra nunca pode ser justificada ou tolerada. É algo nojento e que destrói como “Pegasus” mostra muito bem de forma brilhante com uma riqueza de discussão, reviravoltas, construção de tensão, suspense e de maneira até comovente fazendo com que a série chegue no seu auge e explicite de vez o que já estava explicito como o meu amigo Thiago Silva disse no podcast sobre “Episódios Favoritos”: sim, Battlestar Galactica é sobre a Guerra ao Terror e uma das críticas políticas mais fortes feitas a ela. O debate é parte constante do que é Battlestar Galactica e ela acaba passando pelos mais chocantes possíveis: é válido fraudar uma eleição para impedir que a pior pessoa possível chegue ao poder? O que se tira ao se ver a humanidade responder terrorismo com terrorismo? A luta armada é uma opção válida? Até que ponto a religião pode ser algo positivo ou negativo? Quem é o real inimigo? Quem é o real vilão? Existem heróis de fato? Tem como se colocar um fim no ciclo de violência e belicismo que a humanidade nasceu? E isso porque estamos falando de uma série que ainda toca em eugenia, alcoolismo, questões trabalhistas, sindicalismo, e por aí vai. E ela nunca te diz que conclusão você deve tirar disso, ela nunca aponta uma conclusão, um caminho fácil, um didatismo, uma obviedade e sim te oferece a discussão, a analisa e deixa a seu cargo a reflexão sobre ela. E a beleza é essa.

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Diego Quaglia

Diego Quaglia

@diegoquaglia2

“Arte é algo maravilhoso, audiovisual é o que mais me atrai e as séries são parte dessa paixão. De série teen até série da HBO, não importa gênero ou estilo, o importante é me fazer sentir esse amor”.

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