“Não tem lei nenhuma em Deadwood” diz um personagem um pouco antes de ser enforcado numa execução por um dos protagonistas da série da HBO, “Deadwood”, Seth Bullock (o ótimo Timothy Olyphant que depois brilharia na também excelente “Justified”), então no cargo de delegado, no episódio piloto, depois de ser ameaçado de linchamento. Gostando ou não, Bullock tem uma missão e a cumpre, e diante de ameaças, é uma força inabalável contra injustiças e abusos, que ele não tolera. Bullock e seu amigo, parceiro e sócio Sol Star (John Hawkes) estão entre os tantos homens e mulheres que vão para Deadwood, um campo de mineração em plena corrida do ouro e no velho oeste norte–americano, em busca de enriquecimento. O campo, miserável e sujo, é como um reflexo físico mesmo dos mais diversos criminosos, marginalizados e párias daquele mundo, entre eles Al Swearengen (Ian McShane, em uma das criações mais geniais e complexas de qualquer série), proprietário do saloon/prostibulo do lugar e espécie de manda–chuva da região atuando como um chefão do crime local.

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Os impulsos de Bullock por sua visão cega e extremada de justiça o levam ao cargo de xerife do acampamento e ao confronto direto com Al, um homem de negócios escusos e sujos. Porém o acampamento, que pouco a pouco vai se tornando uma cidade com o passar da série, atrai as atenções das mais diversas ameaças vindas de fora, o que força Bullock e Swearengen a começarem a se unirem, inicialmente contra as suas intenções. A premissa de Deadwood pode fazer com que a série pareça mais uma história que cai no lugar comum do seu gênero, porém assim como “The Wire” é uma desconstrução do que é a série policial e “The Sopranos” é de narrativas sobre máfia, Deadwood é sobre os faroestes.

Não existem muitos duelos ou sequencias de ação em Deadwood, o que existe é uma crueza em todos os aspectos seja na sua violência brutal e dolorosa, que pode ser variar entre ser repentina ou então torturante, mas sempre é direta e sem vírgulas, ou na total falta de romantismo e saudação ao olhar o seu gênero da forma mais suja e sem glamour combinando essa ambientação primorosa com um uma direção sempre atenta a cada detalhe dos seus ambientes e dos seus personagens (muito graças ao diretor do piloto, Walter Hill, um dos melhores diretores de gênero do cinema norte–americano moderno que inclusive ganhou um Emmy pela série, concedeu a ela esse tom visual para ser seguido).

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O texto totalmente imersivo de David Milch, um gênio, dá a diretriz completa para aqueles personagens e aquela cidade. Milch escreve longos diálogos, monólogos e até solilóquios cheios de palavrões, mistura expressões das mais vulgares e obscenas com um tom muito erudito, um lirismo bem duro que desmascara a mente de todos os seus personagens e batalhas verbais das mais inteligentes, mas insere isso de maneira tão natural dentro da série que parece que estamos ouvindo música onde cada palavra aparece no lugar certo e com o máximo de força e prazer possível. Milch pega todos os personagens típicos do faroeste e olha para eles além de qualquer tipo de simplificação de um tipo: concede demônios, inseguranças, falhas, tormentos, mascaras, contradições e camadas para toda uma gama de personagens que muitas caem só em clichês do gênero.

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Isso porque Milch não está preocupado em usar o faroeste como um palco de tiroteios e contos sobre a luta do bem e do mal, pelo contrário, ele se preocupa em usar a construção de Deadwood como uma demonstração praticamente sociológica da formação da vida em comunidade e do seu nascimento. Por isso de maneira interessante Deadwood talvez, diferente de “The Sopranos” ou recentemente “Succession” por exemplo, seja uma série que fuja de um estudo pessimista e misantrópico, porque os habitantes daquela cidade – por mais autodestrutivos, cheios de vícios, falhos e com diversos conflitos entre si – acabam se unindo e formando um laço genuíno de comunidade ao se protegerem uns aos outros das ameaças governamentais e empresariais vindas de fora da cidade, o que concede a Deadwood um lado quase positivo e bonito que nunca destoa do seu tom de violência e amoralidade, pelo contrário, conversa completamente com ele porque conversa justamente com o que é aquela cidade.

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O próprio Swearengen acaba sendo o maior dos reflexos de carne e osso do que é aquela cidade e do quão complexa ela é, já que ele é praticamente uma parte viva dela: asqueroso, violento, autodestrutivo, amoral e cruel tão qual o ambiente daquela região, mas também com algo muito doce em formação e capaz de grandes gestos, que é o que aquele acampamento representa também. O magnifico episódio “The Catbird Seat” da terceira e última temporada é a síntese máxima da série quando um dos personagens mais adorados é brutalmente assassinado de maneira covarde e todos os seus habitantes – com diferenças ou não – se unem para enfrentar a situação, se indignar e sofrer o luto. Porque Deadwood não acredita na individualidade jamais nem no lugar mais infernal da face da terra como aquele campo. Ela acredita no poder coletivo e nos laços positivos e negativos que a vida em grupo traz.

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Diego Quaglia

Diego Quaglia

@diegoquaglia2

“Arte é algo maravilhoso, audiovisual é o que mais me atrai e as séries são parte dessa paixão. De série teen até série da HBO, não importa gênero ou estilo, o importante é me fazer sentir esse amor”.

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