Recentemente o Brasil perdeu dois de seus maiores atores: Tarcísio Meira e Paulo José. Tarcísio é um dos maiores símbolos da teledramaturgia brasileira, foi o maior galã brasileiro, foi um ator inquieto e ambicioso sempre (trabalhando no cinema em filmes ousados de Glauber Rocha, Carlos Manga, Anselmo Duarte, Miguel Faria Jr. e outros que usaram todo o seu talento), tinha um timing cômico excelente, um carisma insuperável, atuou no teatro até o fim recebendo prêmios e como alguns já falaram era um ator naturalmente “épico”. Uma espécie de Henry Fonda brasileiro.

Já Paulo José é outro gênio, um dos maiores que tivemos, um ator extremamente versátil capaz de fazer chorar com o seu naturalismo tão exato ao mesmo tempo que também pode fazer rir com tipos cheios de ironia, é de uma força na sua voz calma que de repente pode explodir com raiva ou desabar de emoção, trabalhou com alguns dos maiores diretores do cinema brasileiro em obras–primas e entendia o tom especifico de cada um deles sempre, passou por diversas vertentes da carreira artístico, foi roteirista de cinema, diretor de teatro, diretor na televisão (chegou a criar programas como o icônico “Você Decide” em 1992 que ele próprio dirigiu nos primeiros anos) e nunca escondeu que era um apaixonado pela arte.

Perdemos dois dos nossos maiores atores, mas seus trabalhos seguem eternos. Por isso decidir listar cinco ótimas minisséries que tem participação dos dois seja atuando, dirigindo e até contracenando como é o caso de duas das listadas. É uma singela homenagem para que mais pessoas conheçam a grandiosidade do trabalho desses artistas. E eles são tão gigantes que cinco é muito pouco para falar deles por isso grandes trabalhos como “Um Só Coração” (2004) – onde eles inclusive também atuam juntos apesar de não contracenarem –, “Labirinto” (1998) ou “Luna Caliente” (1999).

1. “O Tempo e o Vento” (1985)

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Paulo José na década de 80, além de ser um dos mais respeitados atores brasileiros da sua geração, já havia se aventurado pela direção de televisão em “Casos Especiais” (uma série antológica da TV Globo que adaptava peças de teatro, obras literárias e trazia algumas histórias originais dos autores da emissora) e em outras antologias como “Aplauso” (uma criação sua onde ele adaptava somente peças teatrais) e o “Caso Verdade” (que transforma histórias e casos reais em dramaturgia), mas foi comandando a adaptação da obra–prima de Érico Verissimo onde Paulo José, gaúcho como Veríssimo, estreou na emissora que trabalhava como um dos seus principais diretores de dramaturgia quando o assunto era minisséries.

Em 1982 a Globo começou a investir no formato de minissérie com “Lampião e Maria Bonita” e em 1985 três dos maiores autores brasileiros: Verissimo, Jorge Amado com “Tenda dos Milagres” e Guimarães Rosa – que falaremos a seguir – ganharam adaptações em forma de minissérie. Adaptada pelo roteirista Doc Comparato, a minissérie se focava apenas nos dois primeiros volumes da obra de Verissimo chamados de “O Continente” mostrando a formação do Rio Grande do Sul por meio da família Terra Cambará. Em 1895, alguns poucos anos da Proclamação da República, conflitos políticos fazem que o republicano Licurgo Terra Cambará (Armando Bógus) busque defender sua família e seus aliados enquanto todos são cercados e ameaçados no sobrado da família na cidade de Santa Fé por federalistas, um grupo de separatistas que querem um Rio Grande do Sul independente e são comandados por Alvarino Amaral (interpretado pelo próprio diretor Paulo José), filho do Coronel Bento Amaral (José Lewgoy), antigo inimigo da família Terra Cambará que busca vingança. Enquanto o conflito segue, a matriarca da família Bibiana (interpretada por Lélia Abramo na velhice, Lílian Lemmertz quando está adulta e Louise Cardoso na juventude), avó de Licurgo, relembra a história de sua família: a trajetória de sua avó Ana Terra (Glória Pires), o belo e trágico romance de Bibiana na juventude com seu marido o Capitão Rodrigo Cambará (Tarcísio Meira) e o casamento conturbado do seu filho Bolívar (Daniel Dantas) com Luzia (Carla Camuratti), enquanto o neto combate a família Amaral e os federalistas que eles comandam chamados de “maragatos”.

“O Tempo e O Vento” foi até então a produção mais ambiciosa da TV Globo: cara, com cuidado de superprodução, um elenco vasto cheio de astros da emissora que passava por quatro fases distintas e diversos figurantes. O texto de Veríssimo foi seguido com fidelidade máxima por Comparato enquanto Paulo José usou ao máximo um tom de lirismo das imagens e daquela região para acrescentar ao tom estético que se mescla com a brutalidade das cenas de ação e de conflito dos personagens expondo o melhor das qualidades de Veríssimo: o épico da saga familiar, a poesia e psicologia apurada que cerca os seus personagens. Com o melhor do elenco da minissérie em suas mãos Paulo José foi o maestro de um elenco cheio de interpretações excelentes onde uma jovem Glória Pires – já uma estrela – se afirmou como uma atriz complexa acompanhada de também brilhantes Lélia Abramo, Lílian Lemmertz, Armando Bógus, Bete Mendes, Louise Cardoso, José Lewgoy e claro o grande Tarcísio Meira.

O maior galã da televisão brasileiro, Tarcísio foi a escolha mais acertada possível para compor um dos grandes personagens da literatura brasileiro e talvez junto com Ana Terra o mais icônico dos personagens de Veríssimo, tanto por levar o seu carisma natural para um personagem que é um poço de carisma que deixa marcas profundas para onde vai e por mostrar um lado sombrio seu inerente como interprete quando o desenvolvimento do Capitão Rodrigo como personagem vai o levando para um lado mais e mais auto–destrutivo por não conseguir se adaptar há uma vida “comum” com sua amada.

Esse não foi o primeiro encontro de Tarcísio e Paulo como ator e diretor, eles já tinham feito um episódio do “Caso Especial” chamado “A Pérola” de Dias Gomes, mas aqui temos dois dos grandes momentos da carreira de ambos na televisão em seu auge. Anos depois em 1994, Paulo José dirigiria mais uma minissérie baseada num texto de Érico Veríssimo, a ótima “Incidente em Antares” adaptada por Charles Peixoto e Nelson Nadotti. Curiosamente Paulo José não conseguiu levar o seu fascínio com a cultura do Rio Grande do Sul para o cinema como diretor: mesmo que a sétima arte tenha sido a sua maior paixão, Paulo nunca conseguiu estrear nela como diretor mesmo tendo há anos um projeto que planejava dirigir entre os anos 90 e 2000 sobre o romance entre Giuseppe Garibaldi e Manuela Gonçalves, a sobrinha de Bento Gonçalves, que acabou sendo retratado na linda minissérie “A Casa das Sete Mulheres” de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, dirigida por Jayme Monjardim, que por coincidência dirigiu em 2013 uma versão bem inferior de “O Tempo e o Vento” para o cinema.

2. “Grande Sertão Veredas” (1985)

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Vocês lembram que eu tinha falado que junto com “O Tempo e o Vento” e “Tenda dos Milagres” um livro de Guimarães Rosa também foi adaptada como minissérie em 1985? Esse livro foi “Grande Sertão Veredas”, a obra–prima de Guimarães Rosa e pessoalmente o meu livro brasileiro favorito. Adaptar Guimarães Rosa não é tarefa fácil, o texto dele é de uma densidade inacreditável justamente porque Guimarães usa o máximo da linguagem e de um dialeto tipicamente brasileiro para traduzir uma espécie de poesia inerente presente nos confins da ruralidade brasileira enquanto mescla isso tudo em faroestes meio épicos que obedecem a códigos puramente do povo brasileiro e da sua trajetória e formação regional além das mais diversas aberturas para leituras poéticas, culturais, políticas e sociais.

O diretor Walter Avancini, figura controversa e questionável, mas sem dúvida nenhuma um dos mais ambiciosos e criativos diretores de televisão sempre disposto a enriquecer e desafiar a média com um cuidado de imagem, encenação e narrativa raro, junto com o seu parceiro habitual, o grande roteirista Walter George Durst, foram incumbidos dessa difícil missão de adaptar algo que muitos dizem ser “impossível de ser adaptado”. O resultado foi uma excelente transposição do livro para o audiovisual respeitando o ritmo próprio da arte de Guimarães, fazendo as imagens descritas no seu livro ganharem uma dimensão belíssima ao filmar de planos daquela região e dar uma caracterização suja longe de qualquer glamour para a sua ambientação ao mesmo tempo que respeitando as palavras poéticas de Guimarães expostas por um elenco extremamente bem dirigido e escalado em caracterizações impecáveis.

Tony Ramos e Bruna Lombardi – no seu melhor papel – tiveram as suas imagens de galã e de mocinha completamente subvertidas e descontruídas para compor fisicamente e psicologicamente Riobaldo e Diadorim. E o mesmo pode ser dito de Tarcísio Meira magnifico como o vilão Hermógenes, numa caracterização suja, com a barra por fazer e mais gordo que o costume até então, se transformando e falando como um verdadeiro animal até empostando ainda mais a sua já grave voz como se fosse uma besta. No mesmo ano Tarcísio fazendo duas grandes figuras da nossa literatura apareceu como o herói épico, trágico e romântico em “O Tempo e o Vento” e o vilão animalesco e asqueroso aqui. Uma prova da sua versatilidade.

3. “Desejo” (1990)

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Glória Perez é mais conhecida por novelas como “Barriga de Aluguel”, “O Clone”, “Caminho das Índias”, “A Força do Querer”, entre outros, porém alguns dos seus melhores trabalhos na televisão são em minisséries como “Hilda Furacão”, “Dupla Identidade” e “Desejo” de 1990. A minissérie retrata a triste vida real de Ana de Assis (Vera Fischer numa atuação impecável, talvez a melhor da sua carreira) que se sentido ignorada pelo marido, o escritor Euclides da Cunha (vivido por Tarcísio), se torna amante de Dilermando dos Reis (Guilherme Fontes), o que resulta uma série de tragédias.

A minissérie marca momentos inspirados de todos os envolvidos: Vera Fisher foge de qualquer estereótipo dos seus trabalhos anteriores ao compor uma Ana sofrida, complexa cheia de erros e cada vez mais machucada pela vida abraçando a tragédia e o melodrama no máximo, enquanto Tarcísio oferece uma sensibilidade erudita para Euclides ao mesmo tempo que transforma os seus momentos finais de fúria sanguinária pela honra imposta pela sociedade num show de interpretação, Guilherme Fontes se mostra um grande ator ao compor um Dilermando entre o angelical e o algoz e fora do triangulo central ainda temos uma excelente Deborah Evelyn em um dos seus melhores momentos como a amargurada Alcmena, a irmã de Ana.

O texto de Glória é maravilhoso e muito complexo respeitando o dialeto da época num grande trabalho de pesquisa e fugindo do maniqueísmo por decidir não julgar nenhum dos personagens mostrando como aquela situação foi trágica e violenta para todos sem exceções além de tocar em questões como o machismo da época, a imprensa e a injustiças da justiça. Wolf Maya também fez um dos seus melhores trabalho apostando numa direção muito elegante baseada numa reconstituição de época muito cuidadosa, fiel e em uma decupagem impressionante que surge principal nos momentos mais violentos e emocionais. Tanto as mortes de Euclides e Quidinho (Marcelo Serrado) – em paralelo com Ana dando luz – estão entre as melhores cenas da teledramaturgia brasileira.

4. “Agosto” (1993)

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É agosto de 1954 e duas tramas caminham em paralelo: o sofrido Comissário Alberto Mattos (José Mayer), o único policial honesto da sua delegacia, e até por isso desprezado e visto como um fracassado pela maioria à sua volta, investiga o assassinato do empresário Paulo Gomes de Aguiar enquanto se vê diante de um triangulo amoroso entre Salete (Letícia Sabatella), ex–prostituta amante de um homem poderoso corrupto, e Alice (Vera Fischer), sua paixão do passado que agora se encontra casada com Pedro Lomagno (José Wilker), o ambicioso sócio de Paulo. Enquanto isso o Brasil vive um momento cheio de confusões políticas onde Gregório Fortunato (Tony Tornado), o chefe da segurança do presidente Getúlio Vargas, se envolve num atentado contra Carlos Lacerda, político e jornalista rival de Getúlio. As duas narrativas vão se cruzando numa trama onde assassinatos, mistérios, política e sexo são os principais fatores. Essa é “Agosto”, minissérie dirigida por Paulo José onde Jorge Furtado e Giba Assis Brasil adaptam o romance de mesmo nome de Rubem Fonseca, um dos grandes escritores do Brasil e o maior nome nosso no gênero policial.

“Agosto” é o melhor trabalho de Paulo José como diretor e definitivamente uma das grandes obras já feitas na nossa televisão por conseguir dar uma vida tão especial e única para o noir em sua essência dentro da máquina televisa e totalmente em diálogo com a realidade brasileira. A trama de Fonseca é maravilhosamente construída num roteiro que vai aos poucos interligando as suas duas tramas centrais e as diversas sub–tramas entre elas, dando novos contornos sociais e políticos em como observa a hipócrita e corrupta sociedade da década de 50 no Brasil e oferecendo novas camadas psicológicas para os seus personagens num painel maravilhoso do submundo urbano. Os diálogos de Fonseca são deliciosos de serem ouvidos num misto de cinismo e melancolia constante seguidos fielmente pela adaptação de Furtado e Giba.

Paulo de novo se mostra um diretor de atores habilidoso e um grande diretor ao conduzir seus astros em momentos de glória: todo o elenco está perfeito e “Agosto” é cheio de interpretações genais desde o elenco central até coadjuvantes como Cláudio Corrêa e Castro hipnotizante, Tony Tornado numa composição genial e participações especiais sempre significativas. Isso sem falar num primor estético emulando o melhor do gênero com claras referências de “Chinatown” de Roman Polanski principalmente com o objetivo de se utilizar de uma iluminação forte e poderosa para expor os cantos mais sombrios da realidade dos personagens como em vários dos assassinatos. Isso faz com que quando as cenas são tomadas pelas sombras isso gere um contraste ainda mais forte como quando Gregório é interrogado pelos militares ou em um dos assassinatos cometidos na história. Existe um cuidado na maneira que a série tecnicamente vai mostrando a violência em detalhes quase como se ela fosse parte de uma operação clínica de um mundo frio, uma câmera subjetiva passeia pela cena enquanto testemunhamos um assassinato sem vermos quem é o assassinato, o trabalho de câmera do diretor de fotografia Walter Carvalho é muito especial aumentando o sentimento de tensão e de horror que os personagens estão diante daquela realidade o que fica claro quando a morte e o medo tocam seus personagens em enquadramentos muito variados, o final então não poderia ser melhor nesse aspecto: a câmera num plano aberto acompanha um carro desaparecendo numa estrada com o tempo radiante depois de um violento assassinato ter sido cometido pelo motorista e aí um grande arco–íris surge no céu. Ironia das melhores, Paulo José.

5. “A Muralha” (2000)

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“A Muralha” dá início à série de minisséries históricas que Maria Adelaide Amaral desenvolveria durante a década de 2000. Na realidade nem diria que elas são minisséries, de “A Muralha” até “JK” (2006), o que vemos na realidade são novelas menores que ficam entre 40 e 50 e poucos capítulos se utilizando da mesma raiz folhetinesca para construir as suas tramas e claro com mais liberdade para experimentar. “A Muralha” fala do cotidiano e dos conflitos da família de Dom Braz Olinto (um excelente Mauro Mendonça), bandeirante da então Vila de São Paulo nos primórdios do Brasil Colônia que vive uma guerra com Dom Jerônimo Taveira (Tarcísio Meira), comerciante rico da região e vilão da trama.

“A Muralha” adaptava o romance de Dinah Silveira de Queiroz, uma exaltação aos bandeirantes e ao seu valor como desbravadores de São Paulo, Maria Adelaide Amaral decidiu ter uma visão mais crítica do assunto e no tom da minissérie: por mais que Maria Adelaide ainda cultivasse algum romantismo e contradição ao mostrar um falso “heroísmo” nos bandeirantes, ela também ressalta o quão o seu papel foi destruidor e perverso para os povos indígenas, e o mesmo pode ser dito do retrato da religião católica por meio dos jesuítas. Esses eram representados pelo Padre Simão (Paulo José em ótima interpretação), um homem bom, mas que aceitou as contradições perversas da sua religião, o que lhe coloca em choca com o outro religioso mais jovem e mais questionador enviado para o lugar, o Padre Miguel (Matheus Nachtergaele em grande momento), que se vê horrorizado com a verdade sobre o que acontece na colônia. A riqueza de “A Muralha” se veio muito por decidir fazer um retrato cru e sem medo de uma época selvagem, violenta, suja e onde tudo era primitivo desde as ações até os sentimentos colocando isso no texto de Maria Adelaide Amaral que unia essa ousadia com um folhetim puro dos mais bem feitos cheio de amores impossíveis e segredos do passado até a direção extremamente segura e corajosa de Denise Saraceni.

Todo elenco teve momentos de brilho em “A Muralha”, porém o grande destaque com certeza foi Tarcísio Meira, talvez na minha interpretação favorita dele, transformando Dom Jeronimo num personagem gigantesco graças a uma união entre ator, o texto de Maria Adelaide e a direção de Saraceni. Dom Jerônimo era perverso, criminoso, ganancioso, cruel, cínico, atormentava a sua esposa judia Ana (Letícia Sabatella, excelente) casada obrigada com ele para salvar a vida de seu pai da Inquisição, fanático religioso, moralista e hipócrita já que na realidade por trás da sua imagem de homem católico guardião dos “bons costumes” era um pervertido que abusa sexualmente das índias que trabalhavam para ele. Tarcísio novamente fez uma composição espetacular para interpretar Dom Jeronimo: um homem de dentes podres, barba suja, vestimentas sombrias, sujo e que era tão asqueroso por dentro quanto por fora. Tarcísio que era um ator que poderia se mostrar confortável no seu lugar eterno de grande galã e ícone sempre buscou brincar e subverter isso em atos de coragem como esse.

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Diego Quaglia

Diego Quaglia

@diegoquaglia2

“Arte é algo maravilhoso, audiovisual é o que mais me atrai e as séries são parte dessa paixão. De série teen até série da HBO, não importa gênero ou estilo, o importante é me fazer sentir esse amor”.

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