O primeiro episódio de “Mare of Easttown” funciona para estabelecer muito bem quem é a protagonista Mare (Kate Winslet) e como ela está tão inserida naquela região. Uma região muito refletida quando seguimos o cotidiano de Erin McMenamin (Cailee Spaeny), uma adolescente pobre, com um pai alcoólatra e que engravidou tendo que criar o filho praticamente sozinha. Erin é o primeiro reflexo de uma juventude meio perdida e fragilizada que vamos vendo mais e mais enquanto a série se desenvolve. O reflexo de crianças que precisam ser protegidas de violências, durezas e armadilhas comuns a aquele lugar aquela sociedade. Essa sociedade por sua vez falha em protege–lós porque seus cotidianos têm que ir seguindo e a vida vai seguindo.

Enquanto isso, Mare vive uma vida onde reprime os seus demônios internos, os seus vários traumas do passado e faz isso lidando com tudo ao seu redor com sarcasmo e cansaço enquanto lida com os mais diferentes habitantes daquela cidade e suas idiossincrasias: pessoas infelizes, cheias de hábitos absurdos, de feridas que aquela cidade deixou e excêntricas. Em Easttown, uma cidade pequena no subúrbio da Philadelphia formada em grande parte por pessoas da classe trabalhadora ou relacionadas a ela, onde todos os personagens se conhecem e tem alguma relação.

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A vida naquela cidade dá volta nelas mesmas – como a personagem de Winslet tão bem demonstra em suas andanças no primeiro episódio – e entendemos isso no segundo que vemos jovens sem perspectiva, que recorrem a violência, a apatia, a brigas, a atos patéticos ou então a um desejo de ir para outro lugar. Porém todo a conexão de relações das pessoas de Easttown é uma conexão oculta que vai além das relações e do sangue, é uma conexão com um peso que fica escondida no peito daquelas pessoas extremamente frágeis e se solta em comentários sarcásticos, em ironia ou então em desabafos que podem acontecer no meio de um enterro, numa conversa sincera com a esposa do seu neto ou no encontro final de uma excelente Julianne Nicholson com a protagonista no final.

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O que o showrunner Brad Ingelsby (roteirista do filme “O Caminho de Volta” de 2020) e o diretor Craig Zobel (que já comandou episódios de “The Leftovers” e “Westworld”) é unir três polos num só: a série de investigação sobre um “quem é o assassino?” que acompanha Mare investigando um assassinato que leva a uma outra série de crimes, uma análise sobre os habitantes de Easttown e os dramas da sua protagonista. Séries e filmes sobre crimes em cidades pequenas que escondem segredos, policiais problemáticos e por aí vai existem aos montes, mas o que aqui é oferecido de destaque e de forte na sua personalidade para se destacar e não ser só mais uma série dessas no meio de tantas e ficar longe de cair no mais do mesmo obvio ou no que já é batido e manjado, é uma estrutura tão bem pesada e executada que consegue acessar e equilibrar esses três polos indo de um para o outro numa naturalidade que te deixa imerso em cada etapa daquele caso, em cada característica nova que descobrimos sobre a vida de Mare, sobre o seu estado psicológico, sobre a sua família e sobre os seus vizinhos de cidade.

O roteiro de Ingelsby vai criando reviravoltas, colocando novos caminhos, novos detalhes, caminhos falsos, viradas, brincando com as nossas expectativas e brincando com o espectador de forma constante, e o que poderia parecer só mais um truque barato de roteiro, sempre parece natural pela habilidade dele de inserir isso numa progressão natural e unir isso sempre dentro de algum aspecto humano sobre Mare e aqueles que estão ao seu redor. A progressão que aquele cada avança é exatamente a mesma progressão em que vemos Mare lidar, viver, errar e acertar ao ter que enfrentar um trauma terrível que ele ainda se nega a processar. Nada é uma coisa só para Mare. Tudo se espalha. Ela e sua hilária mãe Helen (a sempre maravilhosa Jean Smart mostrando o tanto do seu timing cômico e uma emoção genuína nos momentos com a família) por exemplo vivem às turras, mas dividem um sentimento profundo de entendimento entre as duas, que vai muito além das palavras bonitas ou de abraços. Mare é falha em tudo que ela faz, mas profundamente humana e forte em tudo também.

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Se em um momento a série também está investigando a dureza da vida daquelas pessoas com as suas infelicidades ocultas, em outro ela está observando eles como uma crônica quase que com momentos de comédia de costumes onde os seus hábitos estranhos são comentados com sarcasmo e ironia, mas curiosamente sem usar isso como um julgamento e sim ressaltando as características daquelas pessoas. A cena do funeral nesse sentido é perfeita. Isso porque o que Ingelsby e Zobel fazem é fundir o tom da sua protagonista com o tom em que conduzem a sua série. E isso funciona tão muito bem porque Kate Winslet está fantástica compondo de forma milimétrica cada detalhe complexo da sua personagem: desde o bom– humor que divide nas cenas com a sua mãe e com o pessoal da cidade, desde do peso que coloca para fundo do fundo até explodir em silencio e toda a intensidade nos momentos de tensão.

Uma tensão inclusive que fica presa junto com os seus personagens até que ela explode em momentos impressionante como o momento em que Mare e o personagem de Evan Peters são confrontados com uma espécie de mal que não tinham visto até então ou quando a amiga de Erin é perseguida pelo ex–namorado da amiga enquanto o neto de Mare vive um momento de perigo numa montagem paralela que deixa o seu coração batendo. A cada instante o diretor ressalta que alguém pode correr perigo, que a fragilidade humana que cerca aquelas pessoas criam raízes que continuam um ciclo, que uma criança pode sofrer, pode crescer inadequada, cheia de problemas e infeliz, que a sua falta pode deixar marcas de dor profunda, pode ser abusada, que o risco da sua distância pode atormentar e preocupar, que ela pode fugir que uma criança pode se fundir de tal maneira a aquele ambiente que se torna parte dele como vemos em especial no final da série e que os traumas podem ser tão fatais quanto também podem ser quebrados em demonstrações simples da vida. Por isso como “Mare” deixa claro: protejam as suas crianças. Porque a sociedade e o mundo não vai fazer isso. Por isso só nos resta lutar por essa proteção.

Nota

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Diego Quaglia

Diego Quaglia

@diegoquaglia2

“Arte é algo maravilhoso, audiovisual é o que mais me atrai e as séries são parte dessa paixão. De série teen até série da HBO, não importa gênero ou estilo, o importante é me fazer sentir esse amor”.

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