Não é nenhuma novidade que eu considero "The Wire" (2002 - 2008, HBO) a melhor discussão sobre violência urbana já feita na televisão. Ao contrário de várias outras obras que buscam um lado completamente maniqueísta e raso de "policia versus bandidos", a série criada por David Simon e Ed Burns busca se aprofundar e discutir ao máximo a complexidade das relações de poder presentes na cidade de Baltimore. Tarefa difícil, mas que é alcançada graças ao genial trabalho de desenvolvimento de personagens variados.

Ao terminar a quinta e ultima temporada da série, fiquei abismado com várias coisas; desde a jornada daqueles personagens até toda desconstrução do gênero "cop show". Porém, neste texto gostaria de abordar um assunto específico: os ciclos. Presentes na jornada dos personagens, os ciclos são um dos principais temas de The Wire.

O personagem Omar Little (Michael K. Williams), é um ótimo exemplo de como a série retrata tais ciclos. Somos apresentados a ele na primeira temporada como um cara que foge de alguns padrões e clichês do gênero. Temido e imponente, Omar é uma figura mítica em West Baltimore. Um cara no mínimo corajoso, já que vive de roubar de traficantes. Além disso, Omar é homossexual, fato que foge bastante do clichê do bandido "machão".

Omar Little, figura mítica em West Baltimore.

Omar sempre fica na parte mais cinza da série, apesar de cometer assassinatos e vários outros crimes, sempre falava de seu "código" e do "jogo", como no incrível diálogo com Bunk Moreland (Wendell Pierce) ainda na primeira temporada:

"Eu não sou nenhum santo, mas nunca atirei em ninguém que não fosse do jogo".

Com o passar da série somos apresentados a várias outras partes Omar, todas elas complexas e reais. Tornando Omar e a genial interpretação de Michael K. Willians uma das melhores coisas de The Wire.

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Na sua quarta temporada The Wire nos apresenta um novo personagem: Michael Lee (Tristan Wilds), mais um dos vários garotos perdidos e sem apoio que a série nos mostra. Há uma grande semelhança entre as jornadas de Michael e Omar, ambos com infâncias extremamente complicadas, além de abandonados e oprimidos pelo estado. Michael também está sempre no cinza, segue seu próprio código e também possui pessoas com quem se importar. Assim como Omar - e vários outros personagens - faz aquilo apenas por sobrevivência em meio ao caos da falha guerra as drogas de Baltimore. O fim do arco de Michael só aumenta todas as semelhanças.

E não para só nesses dois personagens, a quinta temporada de The Wire só confirma que todas aquelas pessoas são apenas peças no grande jogo. Dukie (Jermaine Crawford), Randy (Maestro Harrell), Bodie (J. D. Williams), Carver (Seth Gilliam), Rhonda Pearlman (Deirdre Lovejoy) e até o político Tommy Carcetti (Aidan Gillen), todos esses assumem novos papeis que antes foram de outros personagens que passaram durante a série.

E assim o jogo continua..

As 5 temporadas de "The Wire" estão disponíveis no serviço de streaming HBO Max

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Thiago Silva

Thiago Silva

@silvathiago015

Um apaixonado pela TV e suas fantásticas histórias.

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